The Walking Dead Voltou À Vida!

    Foram só precisos 5 anos.

    179
    PUB

    Escusado será dizer que este artigo tem spoilers da 9ª temporada. The Walking Dead é uma série complicada. Estreada em 2010 e adaptada de uma BD com o mesmo nome, The Walking Dead tornou-se rapidamente um fenómeno a nível mundial, só rivalizado por A Guerra dos Tronos. Era a primeira vez que os zombies entravam no entretenimento generalista e não foi preciso muito para a série se consolidar como a maior do planeta. Mas nem tudo era rosas.

    A primeira temporada foi comandada pelo criador da série, Frank Darabont. No entanto divergências criativas levaram a que o conceituado escritor e realizador batesse com a porta e abandonasse The Walking Dead. As seguintes duas temporadas tiveram como showrunner Glen Mazzara e seguiram fielmente, na medida do possível, a história da BD. Foi a partir da 4ª temporada, e com a entrada de Scott Gimple para a cadeira de showrunner, que as coisas começaram a descarrilar. Mas desde o princípio que era uma tragédia anunciada.

    Scott Gimple é exímio a escrever aqueles episódios mais íntimos e focados em poucas personagens. Momentos desses são essenciais mas uma narrativa não pode ser só assente nisso. São precisas cenas que façam andar a história para a frente, grandes cenas, que envolvam grandes acontecimentos. Mas o estilo de Gimple não permitia isso e foi aí que a famosa fórmula de The Walking Dead foi implementada. Narrativas lentas, episódios focados em poucas personagens, foco no desenvolvimento pessoal ao invés de grandes escopos narrativos. E de um momento para o outro The Walking Dead tornou-se numa novela com zombies.

    Não me leves a mal, eu gosto muito da escrita de Gimple e os melhores episódios da série foram escritos por ele. Mas a sua fórmula levou à estagnação. Era preciso haver um equilíbrio entre o art house intimista e o comercial de massas. Tal não aconteceu. As temporadas tornaram-se a reciclagem de uma fórmula aborrecida. Arrancar a temporada com um episódio bombástico, pastar, deixar um bom gancho na midseason finale, pastar, e acabar com um episódio bombástico. Então como é que uma novela destas conseguiu aguentar 5 anos? Porque The Walking Dead tinha dois grandes trunfos. Um era o investimento que os fãs já tinham feito nas personagens e na história, e o outro é que sabia muito bem jogar com as expectativas dos fãs.

    Claro que a série perdeu imensas audiências e imensos fãs desistiram de acompanhar The Walking Dead, mas muitos persistiram e eu fui um deles. Confesso que eu fui um dos que caiu na ratoeira. Todos os anos dizia que iria desistir da série, e todos os anos voltava a seguir a nova temporada. Mas todos esses anos de provação compensaram. A 9ª temporada é a melhor desde a temporada de estreia, no ido ano de 2010. E tudo graças à Angela Kang. Kang é uma escritora assídua na série desde a 2ª temporada e agora foi promovida a showrunner. E as mudanças começaram logo a fazer efeito.

    PUB

    A primeira parte da 9ª temporada não tem medo de fazer saltos temporais. O primeiro episódio começa um ano e meio depois do final da 8ª temporada, lá pelo meio houve outro grade salto de alguns meses e no final tivemos um salto de 6(!) anos. O foco virou mais para a narrativa e não tanto para as personagens. Mas aqui é que está o Santo Graal. Ao fazer estes saltos temporais a temporada cria o mistério de “o que aconteceu durante o salto temporal”. Isso traz suspense e muitas oportunidades para fazer crescer personagens e até alterar outras. Dinâmicas mudam, amizades desfazem-se, relações criam-se. E tudo isso acontece sem que nós o presenciemos.

    O foco nas relações interpessoais mantém-se, a série não foi desvirtuada, mas agora tudo é envolto em mistério e o gozo de ver The Walking Dead foi revigorado. Vamos então por partes. A primeira parte da 9ª temporada teve três grandes momentos: O desaparecimento do Rick, o salto temporal de 6 anos e tudo o que aconteceu durante esse período, e a introdução dos novos vilões. Esses momentos chegaram organicamente porque o argumento está a um ritmo bastante acelerado e é com naturalidade que os espectadores recebem estas grandes cenas. A narrativa está com níveis muito altos de adrenalina e emoção e até agora nenhum episódio cortou essa corrente.

    É óbvio que a série The Walking Dead há muito tempo que não é igual à BD The Walking Dead, mas com as mudanças que estes episódios introduziram a série despede-se definitivamente da BD. Agora são duas coisas completamente diferentes e isso é bom. A mudança mais corajosa foi sem dúvida o desaparecimento do Rick Grimes. Há muito que a personagem piscava o olho a um papel mais secundário, relegando a liderança e abraçando uma posição de observador e conselheiro. Isso de facto aconteceu nesta primeira parte da 9ª temporada. Michonne tomou a liderança de Alexandria. E o episódio de despedida do Rick foi muito bem trabalhado, emocionante na medida certa, com um bom ritmo e mais uma vez a lançar o mistério sobre o futuro da personagem. Rick nunca mais irá aparecer na série mas será desenvolvida uma trilogia de filmes para contar os próximos passos do xerife de King County.

    Mas a saída do Rick significa uma oportunidade de desenvolvimento para outras personagens que estavam completamente ofuscadas com a presença do xerife. Agora The Walking Dead tem oportunidade de alavancar todas as personagens secundárias e de facto isso aconteceu logo depois do salto temporal de 6 anos. Henry ganhou destaque e protagonizará uma linha narrativa própria sobre a sua estadia em Hilltop, Gabriel teve uma diálogo muito interessante com Negan, Michonne ganhou imenso destaque muito por culpa do grande mistério que levou ao afastamento de Alexandria das outras comunidades, e no final temos a fuga de Negan que a meu ver se vai tornar numa espécie de anti-herói e vai desenvolver uma relação com Judith semelhante há que tem com Carl nas BD. Não nos podemos esquecer também de Daryl que sofreu uma lavagem mas que continua insonso e sem qualquer propósito.

    O salto temporal de 6 anos apresentou uma série de mistérios que eu estou desejoso para que sejam desvendados. Alexandria afastou-se das outras comunidades, a Maggie abandonou Hilltop com o filho, pelo menos Michonne e Daryl têm uma cruz cicatrizada nas costas. O que raio aconteceu? Todas as personagens se dão bem à excepção de Michonne. Ainda não a vimos interagir com Daryl, mas todas as outras personagens tratam-na com despeito. Parece que seja o que for que tenha acontecido foi algo muito pessoal para a Michonne e foi ela que embateu contra as outras comunidades e não propriamente Alexandria no seu todo. Se o showrunner continuasse a ser o Scott Gimple este mistério iria arrastar-se por muito episódios, talvez uma temporada inteira, mas com Angela Kang vamos ter todas as respostas já na próxima parte da temporada.

    Já a midseason finale da 9ª temporada foi um dos episódios mais bem conseguidos de The Walking Dead desde há muitos anos. Teve uma atmosfera de terror e suspense, foi rápida, cheia de acção, e a morte do Jesus foi muito emocionante. Foi um momento muito impactante que deu uma volta de 180º a tudo o que já tínhamos visto antes. A revelação dos Whisperers foi directa ao assunto e noutros tempos a série teria esticado o mistério durante vários episódios. Agora não. A ameaça foi apresentada e depois revelada e a segunda parte da temporada arrancará a todo o gás para o que se prevê ser uma montanha russa excelente.

    No fim das contas o desaparecimento de Rick conjugado com a liderança de Kang foi o melhor que podia ter acontecido a uma série que se tinha transformado ela própria num walker. Agora The Walking Dead voltou à vida mas terá uma grande batalha pela frente para reverter a má reputação que tem e para reconquistar os fãs que perdeu ao longo dos anos. Eu estou confiante que se Angela Kang se mantiver firme nesta nova fórmula a série possa voltar ao que era antes e tornar-se mais uma vez um fenómeno a nível mundial. Só o tempo dirá. The Walking Dead regressa no dia 10 de Fevereiro do próximo ano e estou ansioso para voltar a mergulhar nesse mundo, como não estava há muito tempo.

    O que estás a achar desta temporada?