78.4 | Crítica

Esta curta é um excelente exercício cinematográfico.

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Jorge Felicidade
Adoro desporto, em especial ténis, que pratico desde criança. A música é fundamental para a minha sanidade mental, quer seja...

Em parceria com o Shortcutz Faro, o Cubo Geek faz críticas às curtas-metragens apresentadas a concurso. Esta é uma crítica à curta-metragem 78.4, com realização de Tiago Amorim e argumento de Pedro Marques.

Os anos 80 viram nascer o rock português, com nomes como Rui VelosoGNR, Táxi, UHF, e personalidades musicais únicas, como António Variações. A acompanhar este fenómeno, a rádio sofreu uma revolução com o aparecimento por todo o país das rádios-pirata, rádios locais que ofereciam música que não teria sido ouvida de outra forma e informação regional, não incluída nos programas das grandes rádios nacionais.

A frequência em que esta curta-metragem tem lugar é um pequeno espaço, que podia ser uma qualquer rádio-pirata nos anos 80. Muitos LPs e não muito espaço. Muita música portuguesa e pouca publicidade. Muita liberdade e poucas amarras editoriais. Numa das personagens há um espírito de missão, como se cada disco de vinil colocado no prato pudesse mudar o mundo, como se cada palavra transmitida nas ondas hertzianas contribuísse para a iluminação das mentes, como se a sua 78.4 fosse um último bastião de resistência contra os grandes e poderosos, contra a mediana complacência de quem não questiona o que ouve, um último bastião contra o status-quo e a mediocridade.

  POST-MORTEM | Crítica

A outra personagem gosta do que faz mas não pretende com isso mudar o mundo. A rádio para ele é uma oportunidade de seguir uma carreira e mudar apenas o seu mundo. Quantos de nós confrontados com uma escolha de carreira, escolhemos ser subversivos e não pagos? A possibilidade de um estágio numa rádio em Lisboa cria uma divisão insanável entre os dois radialistas.

78.4 apresenta de uma forma credível o ambiente dos anos 80, onde a Revolução de Abril ainda estava fresca nas consciências e o perfume dos cravos ainda fazia uma imensa maioria acreditar numa sociedade igualitária, com uma solução diferente do capitalismo e das suas tentações materiais. É censurável a escolha de quem decide tentar a sua sorte na capital e aspirar a uma vida mais confortável? Com certeza que não. É censurável a decepção, raiva, inveja de quem fica para trás? Também não, é um comportamento absolutamente humano. Fica no ar a dúvida: O sofrimento do radialista que vê o seu amigo ir para Lisboa é apenas resultado de quem acredita que ele está a trair o caminho que juntos traçavam ou existem outros sentimentos que nutre por ele? Será o desespero também alimentado pelo sentimento de abandono de quem ama e não é correspondido?

Esta curta é um excelente exercício cinematográfico, correctamente apresentado do ponto de vista da fotografia, com interpretações convincentes, e que revela dos autores a vontade de apresentar aos espectadores um conjunto de questões intemporais sobre a natureza humana, a dificuldade de fazer escolhas e a importância de aceitar as escolhas dos outros.

Alguma vez tiveste que escolher entre a tua carreira e uma amizade?

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