A IDADE DA PEDRA | Crítica

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Por Catarina Gil escritor/a em SOMOSGEEKS.PT
Fascinada pela magia do cinema de animação e admiradora dos filmes de Hayao Miyazaki. O seu percurso pessoal e académico...

Ver um filme dos estúdios Aardman é uma experiência deliciosa, especialmente quando o nome de Nick Park está envolvido. A ausência do realizador e animador desde 2008, após o lançamento da sua curta-metragem Wallace & Gromit: Um Caso do Cacete, elevou as expectativas associadas a A Idade da Pedra.

Aardman Animations continuou a deixar a sua marca no cinema com filmes como Os Piratas! (2012) ou A Ovelha Choné: O Filme (2015), mas é no trabalho de Nick Park, particularmente nas personagens de Wallace e Gromit, que os estúdios conhecem a sua “marca de água” e a força do seu legado.

Com efeito, Nick Park, responsável por coroar a Aardman com o seu primeiro Oscar através de Creature Comforts (1989), foi e continua a ser uma importante figura no que respeita ao estabelecimento do estilo visual inconfundível do estúdio sediado em Bristol. Daí a inevitabilidade da expectativa. Daí as borboletas na barriga quando o título “A Idade da Pedra” irrompe no ecrã da sala de cinema. Nesta longa-metragem de animação Nick Park estreia-se na realização a solo. Depois dos trabalhos a par com Peter Lord e Steve Box em A Fuga das Galinhas (2000) e Wallace & Gromit: A Maldição do Coelho-Homem (2005), respectivamente, Park toma as rédeas da sua terceira longa-metragem de animação.

O filme posiciona-se no princípio dos tempos quando um meteoro varre os dinossauros da face da Terra. Os homens das cavernas, que existem no período da catástrofe, descobrem o futebol ao chutar uma rocha ainda em brasa. Milénios depois, uma tribo de homens das cavernas será liderada por Dug numa “batalha futebolística” contra a Idade do Bronze. Far-se-ia facilmente um paralelismo com as bandas desenhas de Astérix e Obélix, nomeadamente no conflito entre a aldeia “primitiva” da Gália e o Império Romano “civilizado”.

Segundo Nick Park, o futebol surge em A Idade da Pedra maioritariamente como uma metáfora. Este não é um filme sobre o desporto. É antes um filme sobre uma tribo e o seu caminho para alcançar uma maior união. O tom da história recupera memórias de Miracle on Ice (1981), A Hora dos Campeões (1992) ou até Space Jam (1996), com a particularidade de que em A Idade da Pedra a preservação do modo de vida das personagens está dependente da sua vitória. Efervescem ainda lembranças d’A Fuga das Galinhas, onde Ginger, tal qual Dug, move mundos e fundos para salvar as companheiras.

A Idade da Pedra traz ainda algumas novidades a nível técnico. Contrariamente à última longa-metragem de animação de Nick ParkWallace & Gromit: A Maldição do Coelho-Homem, vencedor do Oscar de Melhor Filme de Animação, tudo foi filmado com recurso a câmaras digitais e o filme também se faz valer de uma série de ferramentas digitais. Não obstante, estas não são utilizadas para polir a palpabilidade característica da animação stop-motion. O recurso ao digital manifesta-se em A Idade da Pedra como um mero auxiliar da técnica principal. Técnica essa que se estabeleceu enquanto imagem dos estúdios Aardman.

Nick Park e a sua equipa, da qual aplaudo os diretores de animação Merlin Crossingham Will Becher, distinguem-se assim de alguns títulos recentes mais carregados de efeitos digitais, como Os Piratas!, e celebram a animação stop-motion abraçando as suas imperfeições. Celebram-na acompanhados de um argumento cuidado, estruturado e no ponto certo para incentivar a imersão do público.

De facto, ver este filme torna-se ainda mais extraordinário com a consciência da preciosidade e complexidade da técnica. A este embrulho reúnem-se piadas inteligentemente colocadas e o ambiente visual altamente absorvente criado por Matt Perry e Richard Edmunds. E embora não introduza personagens tão emblemáticas como Wallace e Gromit nem esteja cimentado numa ideia tão hilariante e inusitada como A Fuga das Galinhas, continua a ter pitadas do charme das anteriores criações de Nick Park.

A Idade da Pedra celebra o espírito singular dos estúdios Aardman. Um espírito à típica moda britânica que descobre a boa disposição em piadas constantes e elementos insólitos como um cão a beber chá, uma galinha a fazer tricô ou um coelhinho ingénuo a festejar a sua morte.

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