CHAMA-ME PELO TEU NOME | Crítica

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Jorge Felicidade
Adoro desporto, em especial ténis, que pratico desde criança. A música é fundamental para a minha sanidade mental, quer seja...

A adolescência é por definição uma fase conturbada da existência humana. A agitação provocada pelo despontar do desejo sexual misturada com a incerteza acerca do seu lugar no mundo conduz os adolescentes a viagens alucinantes entre a euforia e a depressão. É comum sentirem-se deslocados e procurarem quebrar regras e desafiar a autoridade, esteja ela na forma de um professor ou de um pai.

Chama-me Pelo Teu Nome segue o percurso de um jovem de 17 anos chamado Elio, que vive com os pais numa quinta no norte de Itália. A acção passa-se em 1982 (parece que a década de 80 não deixa de estar na moda) e tudo é adorável na sua nostalgia – os telefones fixos, andar de carro sem cinto de segurança, ver as primeiras imagens a cores na televisão, e o Walkman, esse aparelho mágico com o qual Elio transcreve música clássica, uma das suas actividades favoritas. Elio pode ser caracterizado como um intelectual numa família de intelectuais. O pai é um professor e investigador da cultura Greco-Romana enquanto a mãe é uma tradutora, que lhe lê livros em alemão.

A família tem origem judaica e por influência da mãe, a casa é um entre-cruzar de línguas, alternando-se por vezes no mesmo diálogo entre o italiano local, o inglês e o francês. Nesta babel onde todos se entendem, Elio tem um intelecto maduro para a sua idade e para além do seu interesse pela música, é um leitor voraz. O actor Timothée Chalamet faz o papel de Elio na perfeição, sendo capaz de lhe oferecer a sofisticação que acompanha a sua inteligência mas, simultaneamente, deixar transparecer um menino-homem, cujo desenvolvimento emocional está longe de acompanhar o intelectual. Durante o verão, Elio vai descobrir a sua ambivalência sexual e perceber que o seu desejo não é simples de compreender ou transcrever como uma música.

Tal como a personalidade de Elio, todo o filme balança num equilíbrio instável entre cenas de enorme sensibilidade e outras de grande crueza. Mas o realizador Luca Guadagnino e o argumentista James Ivory conseguem manter esse equilíbrio por mais de duas horas. É obra! O filme nunca cai em cenas de mau gosto e aquelas com conteúdo mais provocante e sexual estão ao mesmo tempo envoltas num sentimento da inocência da descoberta da sexualidade. E depois há o campo italiano… Estradas sem movimento onde Elio e Oliver se deslocam de bicicleta. Rios onde grupos de amigos tomam banho… Campo a perder de vista e que dá a envolvência perfeita para o romance que a pouco e pouco nasce entre Elio e Oliver.

Chama-me Pelo Teu Nome é sem dúvida um dos melhores filmes de 2017 e uma excelente forma de começar 2018.

Mas voltemos um pouco ao início. Ainda não te expliquei quem é Oliver – ele é o assistente contratado pelo pai de Elio para ajudar no seu trabalho de investigação. Todos os anos o pai de Elio contrata um novo assistente, mas Oliver é diferente de todos os anteriores. Ele é americano, confiante, assertivo, provocador, quase insolente, habituado a terminar as conversas com um “Later…”. Como comentam as amigas de Elio numa cena do filme, “ele é melhor do que o do ano passado”. E Elio começa a pouco e pouco a ficar tão interessado em Oliver como as suas amigas.

A cumplicidade entre os actores Timothée Chalamet (Elio) e Armie Hammer
(Oliver) é fabulosa e um dos pontos fortes do filme. Chamem-lhe química, chamem-lhe o que quiserem mas nunca no filme há a sensação de estar a vê-los representar. Tudo decorre com uma fluidez e uma envolvência que me leva a arriscar provocadoramente a considerar os dois actores um dos melhores pares românticos no grande ecrã de 2017. Oliver começa por ser altivo e distante enquanto Elio parece inicialmente desconcertado e desdenhoso da personalidade do novo convidado.

Mas com o passar do tempo e com a partilha de momentos do dia-a-dia, a proximidade dá lugar a um interesse e o interesse cresce transformando-se numa paixão arrebatadora. A homosexualidade não é um tema fácil para abordar no cinema. Acresce o facto de Elio ser ainda menor e colocarem-se questões éticas ao relacionamento entre os dois. Mas todo o filme é repleto de equilíbrio e bom gosto, mostrando que amor, desejo, sexo, e respeito podem coexistir no ecrã e criar um filme verdadeiramente inesquecível.

Há uma cena no filme que é das mais tocantes e mais emocionantes que tive oportunidade de assistir recentemente. Um diálogo entre Elio e o seu pai, que é um tratado em como ser um verdadeiro pai. A compaixão e a compreensão dessa cena mostra que nos relacionamentos o sofrimento é quase sempre inevitável, mas isso é uma aprendizagem que nenhum de nós devia evitar.

A banda sonora do filme tem música de Sufjan Stevens e é perfeita para contar esta história de amor. Pelo meio do filme ouvimos The Psychedelic Furs tocar “Love My Way” e somos transportados numa viagem nostálgica pela vida nocturna dos 80’s e como era ser “cool” há 35 anos atrás. A última cena do filme é particularmente tocante e tem a particularidade de continuarmos a ver Elio e a ouvir o som ambiente do filme enquanto ouvimos mais uma das músicas de Stevens, enquanto os créditos começam a aparecer. Como se esta experiência cinematográfica sublime se quisesse manter eternamente e não ser substituída pelo habitual negro dos créditos finais.

Chama-me Pelo Teu Nome é sem dúvida um dos melhores filmes de 2017 e uma excelente forma de começar 2018. Elio é um geek dos anos 80, antes da internet e dos smartphones, antes das redes sociais e do excesso de partilhas. Ele é um geek de Walkman nos ouvidos e é apaixonante como todos os verdadeiros geeks o são.

Como foi/está a ser a tua adolescência? Dolorosa ou maravilhosa?

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