DERRADEIRA VIAGEM | Crítica

É um dos melhores filmes do ano.

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Jorge Felicidade
Adoro desporto, em especial ténis, que pratico desde criança. A música é fundamental para a minha sanidade mental, quer seja...

A guerra é uma coisa terrível. Os seus efeitos sobre os combatentes, sobre as suas famílias, amigos e conhecidos, a sua influência sobre uma sociedade vai bem para além da duração de um conflito. As marcas físicas e psicológicas que acompanham quem regressa de uma experiência de combate fazem com que para muitos ex-combatentes a guerra nunca acabe.

A guerra e as suas consequências é um tema recorrente no cinema e cada geração tem a sua guerra. Desde as guerras mundiais até à actualidade, com o Iraque, Afeganistão e o terrorismo, passando pela Coreia e Vietname há matéria sem fim para fazer filmes, sejam eles ficção ou baseados em factos verídicos. Também nas séries para televisão a guerra está presente, mesmo que seja como pano de fundo para a acção principal. Por exemplo, na série O Justiceiro, recentemente estreada na Netflix, os efeitos perversos da guerra estão bem patentes, quer no percurso de vida de Frank Castle, quer numa série de veteranos de guerra.

Três veteranos da guerra do Vietname reunem-se passados muitos anos. O reencontro é iniciativa de Larry ‘Doc’ Shepherd (Steve Carell), que acabou de perder o seu filho no Iraque e pede aos seus companheiros Sal Nealon (Bryan Cranston) e o Reverendo Richard Mueller (Laurence Fishburne) que o acompanhem numa viagem com objectivo de o sepultar. Este é um filme extraordinário, que acaba por ser um “filme de estrada”, com três actores no topo da sua forma a interagirem e a alimentarem-se da energia de cada um. Quando acabamos de ver Derradeira Viagem ficamos com a ideia de que mais ninguém podia ter feito estes papéis.

Há muitas formas de lidar com os traumas da guerra. Sal é dono de um bar e bebe grande parte daquilo que vende. Mueller refugiou-se numa vida pacata como pastor numa igreja. É através de Deus que procura fazer as pazes com o passado. Larry é o mais introvertido dos três e é um homem amargurado. A sua mulher morreu recentemente com cancro da mama e a perda do filho é como um golpe fatal na sua alegria de viver. As personalidades opostas das três personagens principais criam situações de tensão ao longo da viagem. Esta tensão ora é resolvida através de acesas discussões ora através do riso, pois o humor continua a ser um dos melhores remédios.

Bryan Craston é um actor experimentado em comédia, experiência ganha na televisão, muitos anos antes de se ter dedicado à produção de droga em Breaking Bad. A sua personagem é hilariante, cheio de vida e sempre com uma resposta pronta na ponta da língua. A personagem de Laurence Fishburne é o alvo predilecto para as piadas de Craston, que umas vezes põe em causa a sua crença em Deus como salvador, e outras vezes recorda episódios da guerra e como o agora Reverendo era outrora o maior pecador do trio de amigos.

Steve Carell é um homem que apenas quer viver a sua vida em paz. Ao longo do filme aparece invariavelmente como o elo que mantém a relação entre as outras duas personagens suportável. Ao mesmo tempo a sua viagem é uma montanha russa de emoções, começando com o desgosto pela sua perda, até à revolta pela forma como o governo americano tratou o filho, terminando numa reconciliação consigo mesmo, quando percebe não só como o filho o amava, mas também como as suas decisões honraram a sua memória. Não é demais repetir: as interpretações dos três actores são do melhor que se viu no cinema este ano e não me admiro que sejam alvo de nomeações e prémios.

Há no século passado como que uma passagem de testemunho entre gerações que combateram. A guerra do Vietname estava perdida desde o início porque os combatentes nunca perceberam porquê ou por quem estavam a lutar. A geração dos seus pais tinha tido razões válidas para pegar em armas. O nazismo era o mal personificado. Derrotá-lo era a única opção e morrer ao fazê-lo parecia valer o sacrifício. No final da segunda guerra mundial os sobreviventes foram recebidos como heróis. Já os seus filhos foram recebidos nos anos 60 com manifestações e hostilidade quando regressaram do Sudeste Asiático. Os veteranos do Vietname não tiveram nem uma vitória nem o respeito que o seu sacrifício merecia.

Deradeira Viagem é uma história dramática, comovente, hilariante, contada por três actores formidáveis. É um drama com sequências cómicas que nunca parecem deslocadas ou de mal gosto. É uma reflexão inteligente sobre a amizade, a guerra, e como cada pessoa procura um caminho para superar os seus traumas. É um dos melhores filmes do ano. Vai vê-lo!

E tu, achas que há guerras que têm justificação?

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