O GRANDE SHOWMAN | Crítica

    Uma das agradáveis surpresas cinematográficas de 2017.

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    O Grande Showman é um musical biográfico que conta a história de Phineas Taylor Barnum, mais conhecido como P.T. Barnum, um homem cujo nome é sinónimo de circo, espectáculo e cujo talento como promotor mudou a forma de fazer entretenimento no século XIX.

    A palavra “musical” não me entusiasma quando está em causa ver um filme. Adoro a música dos Abba mas nunca me interessei o suficiente para ver o filme Mamma Mia (que tem já uma sequela anunciada para o próximo ano). Mas sou curioso e quis ver O Grande Showman antes de poder dizer mal dele. Ainda bem que assim foi – mudou a minha forma de encarar os musicais, fez o tempo voar, aumentou o meu respeito pelo actor Hugh Jackman, e encheu-me de espírito Natalício. Tudo em menos de duas horas. Mas vamos aos pormenores…

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    A escolha das músicas que acompanham o filme foi acertada e vai captar a atenção mesmo do público mais jovem. As músicas soam claramente ao século XXI e entram facilmente no ouvido. Em poucos minutos de filme estamos a marcar o ritmo batendo com o pé no chão. Ao mesmo tempo, a modernidade da banda sonora não choca com a acção passada no século XIX, e que está impecavelmente retratada nos cenários e no guarda-roupa. Os momentos musicais estão perfeitamente encaixados na acção e aparecem de forma natural, sem nunca parecerem forçados e nunca se tornando enfadonhos. As coreografias são equilibradas e apropriadas a cada momento do filme, com destaque para os momentos de acção no circo, com toda a trupe a dançar e a cantar em uníssono o que lhe vai na alma. Tudo no filme tem ritmo, desde os passos de alguém na rua até aos movimentos repetidos e mecânicos do trabalho enfadonho que um ainda jovem Barnon tem num escritório.

    P.T. Barnum nasceu pobre, filho de um alfaiate, e cedo percebeu a falta de respeito com que ele e o pai eram tratados pelos mais ricos. Um dos pontos fortes de O Grande Showman é que é mais do que uma biografia romantizada. O filme faz um retrato da sociedade americana do século XIX, uma sociedade à beira da revolução industrial, em que a maioria da população vivia numa pobreza extrema, em que a escravatura era ainda uma realidade, e em que o racismo e a intolerância reinavam. Quando ainda era criança, Barnum apaixonou-se por Charity, uma jovem de uma família aristocrata e que só muitos anos depois se tornaria a Sra. Barnum. No dia em que é despedido do seu trabalho num escritório, Barnum regressa a casa e enquanto anima as filhas com jogos de luzes, percebe que o seu futuro e o de toda a família está em animar a vida dos outros. Ser despedido é uma tragédia ou uma oportunidade?

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    O que Barnum fez de diferente foi criar um espectáculo em que as estrelas eram os excluídos da sociedade. Excluídos pela cor da pele, pela baixa estatura, pela alta estatura, excluídos por terem o corpo tatuado ou por terem excesso de peso. Ah, e não esquecer a mulher com uma voz portentosa mas que teve o azar das hormonas lhe fazerem crescer barba. Durante todo o filme sentimos o que é estar no lugar de todas as pessoas que são de alguma forma diferentes e como há um constante apontar de dedos à sua diferença. O circo de P.T. Barnum cria um santuário para todos os renegados que nunca tiveram uma casa e dá uma família para todos os excluídos que sempre viveram sozinhos à margem da sociedade. Agora eles estão orgulhosos sob as luzes da ribalta, num palco para todos os verem.

    Hugh Jackman prova neste filme a sua versatilidade como actor. Tentei durante o filme ver vislumbres de Wolverine ou de X-Men. Não consegui. Este homem parece estar tão à vontade a cantar e a dançar, vestido em trajes de gala, como a destruir tudo à sua frente com as suas garras afiadas. Esta não é a primeira experiência de Jackman no reino dos musicais. Em 2012 já tinha participado em Os Miseráveis, tendo sido nomeado para o Oscar de Melhor Actor Principal. É muito fácil um actor ficar marcado por um papel, especialmente se este for o de um herói como Wolverine. Hugh Jackman consegue em 2017 duas interpretações extraordinárias em dois papéis tão díspares como P.T. Barnum e Logan, este último no filme considerado por muito críticos como um dos melhores do ano.

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    Destaque também para Michelle Williams, que interpreta Charity Barnum, o grande amor da vida do homem espectáculo. Williams ganhou um Globo de Ouro e foi nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Principal por A Minha Semana Com Marilyn. Foi também nomeada para o Oscar de Melhor Actriz Secundária pela sua participação em Manchester by the Sea, um dos grandes filmes de 2016. O par romântico que faz com Jackman exala carinho e amor, sem cair na pieguice. Williams tem uma beleza que enche o ecrã mas é mais do que uma cara bonita, conseguindo destilar emoção e sendo a força gentil que permite que o papel de Jackman tenha uma base segura de apoio para se desenvolver e contar a sua história.

    O Grande Showman é a história do menino pobre que conseguiu ter sucesso e tornar-se rico, para depois descobrir que sempre teve ao seu lado aquilo que realmente importa ter: uma família. É uma das agradáveis surpresas cinematográficas de 2017 e um excelente filme para toda a família, enquadrando-se perfeitamente na actual quadra festiva. Vai vê-lo e ouvi-lo.

    Já viste algum musical? Qual o teu favorito?