TODO O DINHEIRO DO MUNDO | Crítica

Ridley Scott dirige com mestria uma intrigante viagem pelos meandros do poder económico.

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Adoro desporto, em especial ténis, que pratico desde criança. A música é fundamental para a minha sanidade mental, quer seja...

Com quanto dinheiro ficarias satisfeito? Um milhão? Um bilião? Quanto dinheiro é suficiente para poderes dizer: “Chega”? Para o fundador da Getty Oil Company, J. Paul Getty, nenhuma quantia parecia ser suficiente. Apesar de ser considerado o primeiro bilionário da história e de aparecer na lista da revista Forbes e no Livro de Recordes do Guiness como o homem mais rico do mundo, a relação de Getty com o dinheiro era, digamos, algo complicada.

Ficou famosa a cabine telefónica que mandou instalar na sua mansão nos arredores de Londres, para obrigar os visitantes a pagar pelas chamadas telefónicas efectuadas. Também a forma como negociou o resgate do seu neto, raptado em Roma em 1973, é característica de um homem enigmático, para quem era mais fácil avaliar o valor de uma obra de arte da sua imensa colecção do que o valor de uma vida humana.

Todo o Dinheiro do Mundo conta a história do rapto de John Paul Getty III, neto do magnata e à altura um adolescente de 16 anos. O argumento, baseado em factos verídicos, é simultaneamente bem estruturado, fazendo com que a complexidade da história seja fácil de acompanhar, e ao mesmo tempo, profundo na sua análise da complexidade da personalidade do patriarca da família Getty e da sua nora, que luta contra o tempo, procurando obter o dinheiro do resgate para salvar o filho dos seus raptores.

Christopher Plummer tornou-se aos 88 anos o actor mais velho de sempre a ser nomeado para um Óscar, pela sua personificação de J. Paul Getty. Há neste filme uma curiosidade – Kevin Spacey foi a primeira escolha para o papel do magnata, tendo inclusive filmado todo o filme (e até apareceu nos primeiros trailers). O escândalo em que se viu envolvido no ano passado (e que levou à reformulação da série House of Cards) fez com que o realizador Ridley Scott optasse pela sua substituição, dando oportunidade a Plummer para participar no filme.

Com apenas duas semanas para decorar os seus diálogos, o actor aceitou o desafio e tem mais uma interpretação brilhante na sua tão longa carreira. Longe vão os tempos de Música no Coração, um clássico para rever anualmente na TV durante a quadra natalícia. A fase mais recente da carreira do actor, numa idade em que muitos já estariam reformados, está cheia de participações em filmes polémicos, dramáticos, representando figuras poderosas e frequentemente, tenebrosas. Destaco a sua participação em 12 Macacos (1995) e Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres (2011), onde também fez um papel de patriarca de família, um personagem com bastantes semelhanças com Getty.

Ridley Scott dirige com mestria uma intrigante viagem pelos meandros do poder económico.

Se estás habituado a associar Ridley Scott a mundos extra-terrestres, Xenomorfos, Replicantes e futuros distópicos, Todo o Dinheiro do Mundo leva-te numa viagem bem diferente. É uma viagem a um passado recente, onde o realizador dirige com mestria uma intrigante viagem pelos meandros do poder económico. A viagem passa pelo Reino Unido e por Itália, onde o estilo de vida da década de 70 é reconstituído ao pormenor. No filme fica claro que uma das principais características do dinheiro é multiplicar-se. É bem mais fácil ganhar dinheiro quando já o possuis em quantidade considerável. Para J. Paul Getty, todas as decisões são definidas financeiramente e quando é confrontado com o rapto do neto, a sua recusa em pagar o resgate tem por base uma premissa simples: se pagar este resgate, num instante terá que pagar o resgate dos restantes 13 netos. Como se dialoga com alguém que pensa desta forma? A resposta é que qualquer diálogo é sempre uma negociação.

Do outro lado da mesa está a sua nora, a mãe de Paul. A actriz Michelle Williams faz o papel de uma mulher lutadora, que enfrenta corajosamente o rapto do filho. Do ponto de vista da representação, são notáveis as cenas de confronto entre ela e Christopher Plummer. Numa das cenas mais memoráveis de todo o filme, durante uma reunião com advogados para decidir os seus direitos quando do seu divórcio do filho do magnata, Gail Harris faz uma exigência desconcertante. Ela não quer dinheiro pelo divórcio. Apenas quer a guarda dos filhos. Para Getty a proposta é inadmissível. Como pode alguém não querer dinheiro? Que truque tem ela na manga? A cena encerra uma mensagem fundamental: quem tem desprendimento pelo dinheiro tem também um enorme poder – o poder da liberdade de decisão.

A única ajuda que Gail recebeu do ex-sogro durante os meses que durou o rapto do seu filho foi o acompanhamento do caso por parte de um ex-agente da CIA chamado J. Fletcher Chase, interpretado por Mark Wahlberg. Este não é o típico herói de arma em punho. É um especialista em negociações e um homem cerebral, ao qual Wahlberg empresta uma intensidade controlada e metódica. Mais uma prestação de qualidade deste polivalente actor.

Todo o Dinheiro do Mundo tem a força de um filme inspirado em factos verídicos. Sim, porque a realidade é muito mais dramática e irreal do que a ficção. É um filme indicado para quem gosta de analisar o efeito que o poder económico e o dinheiro têm sobre os seres humanos e uma parábola sobre como quanto mais dinheiro possuis, mais dependente estás dele.

Para ti o dinheiro é a verdadeira forma de atingir a felicidade?

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