“Inside Voices”

Há várias coisas muito boas em Agents of S.H.I.E.L.D., mas uma das minhas preferidas é certamente a capacidade que a série tem para pegar em ideias rebuscadas de ficção científica e pô-las a funcionar como base do enredo.

O primeiro pod desta temporada passou imenso tempo meter-nos na cabeça as regras de como funcionam as viagens no tempo dentro desta série. Tanto quanto eles sabem o tempo é linear e não é possível alterar o futuro, porque qualquer evento no futuro já tem em conta a tentativa de alterar o futuro. Eles sabem que estão num loop temporal, não sabem há quanto tempo. Enquanto faziam isso, aproveitaram para nos mostrar um futuro pós-apocalíptico incrivelmente desumano e brutal, onde a terra explodiu e a humanidade foi escravizada por alienígenas. Os dois sub-enredos principais deste episódio estão escritos de maneira a aproveitar essas premissas. Quase todas as decisões e comportamentos das personagens são justificados e limitados pelo que foi estabelecido no primeiro pod.

Eu também queria muito falar do Creel e do Talbot e do Coulson a fugirem da General Hale, e a Ruby a fazer-se ao título de Destruidora de Mundos, mas se fizesse isso isto tornava-se num artigo de 2000+ palavras e ninguém lia nada. Acho que basta dizer que o Talbot está no seu mais interessante, o Coulson continua incrivelmente satisfatório de ver, a Ruby está a ganhar interesse na sua manipulação do Von Strucker, e até o Creel está a ganhar alguma bidimensionalidade.

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Continuo a achar imensa piada ao desenvolvimento da personagem da Yo-Yo. O facto de se ter visto a si mesma no futuro, de ter perdido os braços e ficado temporariamente debilitada, e agora ganhar braços cibernéticos e uma crença na sua própria invulnerabilidade dão-lhe uma profundidade interessante. Sobretudo nos momentos em que contrasta com a racionalidade e precaução do Mack, que continua determinado a protegê-la. Esta cena inicial entre eles os dois mostra-nos em primeiro lugar os novos braços cibernéticos dela, que estão com um ar surpreendentemente fixe, mas sobretudo como o Mack cada vez mais tem uma merecida voz da razão, e a Yo-Yo parece estar a embarcar com demasiado entusiasmo em toda a cena da imortalidade. Este conflito entre o casal é giro porque, mais uma vez, ambos têm razões muito fortes para fazer o que fazem, e estão essencialmente a tentar prevenir que o outro morra.

Também gostei imenso do diálogo inicial entre o Deke e o Fitz, que começa por ser muito divertido, com o Fitz a não querer acreditar que alguém tão irritante como o Deke possa ser seu neto. Mas o que é realmente interessante é que o Deke não se mostra chocado pela viragem para a vilania recente do Fitz. O Deke explica que esse género de decisão moralmente aberrante é o que ele teve de fazer a vida toda para sobreviver, e que até admira o Fitz por isso. Isto faz todo o sentido e volta a reforçar o carácter moralmente ambíguo do Deke, que agora encontra um reflexo no Fitz; algo que, como ele próprio diz, parece ser de família.

Mas depois de a Daisy recusar a ideia da Jemma de perseguir a informação do Fitz, a Jemma percebe que tem de ter uma abordagem diferente. Ela chama a Yo-Yo, vão ter com o Fit, e a Jemma revela que não só acredita que a Yo-Yo é realmente invulnerável, provado pelo facto de ela se ter visto a si mesma no futuro, como também que ela própria e o Fitz são igualmente invulneráveis porque o Deke existe. A Jemma quer aproveitar essa invulnerabilidade para correr riscos espectaculares e tomar decisões radicais e fora de carácter, porque claramente foi isso que o Fitz fez, e resultou. E isto é muito, muito interessante. Porque até agora, sempre que a Yo-Yo se comportava como se fosse imortal, isso era entendido pelas outras personagens, sobretudo o Mack, como algo pouco saudável e auto-destrutivo. No entanto, agora a Jemma não só aceita essa ideia, como quer activamente usá-la para os salvar a todos, e isso põe estas personagens num caminho muito inesperado e diferente do seu habitual!

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Entretanto o plano da Daisy é ir buscar a Robin, a miúda com o poder de ver o futuro, para a ajudar a encontrar o Coulson. Como explica a mãe da Robin, ela parece estar perturbada com alguma coisa, e não está a comunicar como habitualmente, e apesar dos seus melhores esforços, a Daisy também não consegue ajudar. Isso só reforça o drama mais à frente quando, ao ver a May pela primeira vez, a Robin corre para ela chamando-a de “mãe” e começando imediatamente a falar. Isto acontece porque, como descobrimos no pod anterior, a May tomou conta da Robin como se fosse sua filha enquanto estavam no Lighthouse.

Agora nota que nós não vimos isto a acontecer, nem a versão actual da May que também só descobriu isso recentemente, quando a versão idosa da Robin morreu nos seus braços. Portanto temos neste momento uma relação entre duas personagens que já têm conhecimento da importância que vão ter uma na vida da outra, sem que isso ainda sequer tenha acontecido. A maneira como estas consequências de enredos de viagem no tempo são usadas para construir personagens e momentos muito dramáticos e fortes, como acontece com a May e a Robin, são uma das minhas coisas preferidas de Agents of S.H.I.E.L.D.. É giríssimo notar que enquanto que anteriormente a representação da Robin, constantemente desorientada e a dizer coisas semi-aleatórias, é agora reaproveitada e mostrada numa luz completamente diferente. Por esta altura já compreendemos muito melhor o que é que está a acontecer em termos de cronologia de eventos, e apesar de a Robin continuar a agir e a dizer coisas que também parecem aleatórias (“I told you Flint would get you back“), essas coisas agora ganham uma dimensão nova, parecendo coerentes.

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Todo este sub-enredo do episódio, que culmina numa aproximação entre a Robin e a May, e a Robin eventualmente a dizer-lhes onde está o Coulson, é especialmente dramático. A dor e conflito na cara da mãe da Robin ao vê-la a correr para os braços da May, contrastado com o maior sorriso de afecto e ternura que a May já mostrou nesta série toda, geram uma resposta emocional muito específica, e que não é particularmente comum em histórias destas. A exploração da maternidade é um aspecto interessante desta temporada, e a mãe da Robin a admitir que já percebeu que vai morrer e que vai ser a May a tomar conta dela é um momento tão mais trágico por causa disso.

Mas para mim a melhor cena do episódio é a roleta russa da Jemma para convencer o Mack e o Fitz que eles são verdadeiramente imortais. E faz sentido!!! É isso que é assustador. Se eles estão vivos no futuro então é porque todo o passado tem de acontecer de uma maneira que logicamente leve à sua sobrevivência. Isso significa que é impossível ela enganar-se e beber o copo do ácido, apesar de isso ser mesmo muito provável de acontecer. Mas não deixa de ser assustadora a certeza na cara da Jemma, que parece quase eufórica. É o género de certeza inabalável em algo que parece impossível que nos é reconhecível de pessoas com delírios. O Mack muito razoavelmente chama as coisas pelos nomes e diz-lhes que aquilo são eles a perderem contacto com a realidade.

E o que é giro é que a cena está construída para nos dar essa impressão. As reacções do Mack e do Fitz são as que nós próprios teríamos, a cena faz-nos empatizar com a visão deles, propositadamente caracterizando a Jemma e a Yo-Yo como um bocado irrazoáveis neste diálogo. É por isso que quando a Jemma aparenta ter-se de facto enganado e bebido o copo do ácido, a subversão da expectativa do “isto é uma série de ficção científica, ela vai acabar por ter razão” bate com tanta força. Porque afinal a crença na ficção-científica se desmorona debaixo de uma consequência real que é a Jemma ter a mucosa do esófago e do estômago a ser dissolvida por um ácido. Mas isso é subvertido uma segunda vez, quando percebemos que foi tudo um plano engendrado por elas para enganar o Mack e libertar o Fitz. Essa revelação é quase dramática o suficiente para nos distrair, e as nossas expectativas são subvertidas uma terceira vez quando a Jemma diz que apesar de sim, ter sido um plano, havia de facto um copo de ácido, e elas acabaram por provar que sim, são de facto invulneráveis.

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Que montanha-russa de emoções! Esta cena está tão bem escrita!!! O próprio Fitz, que há dois episódios estava a ter quebras psicóticas, diz que isto é de doidos! É emocionalmente dramática, muito inteligente, cheia de camadas, proporcionando um excelente diálogo e interpretações. E surge como complicação directa do conflito das viagens no tempo estabelecido no pod anterior. É um excelente exemplo de utilização dos plot devices associados a viagens no tempo para criar uma cena intensa, entusiasmante e que avança o enredo e as personagens. E esta cena só funciona da maneira que funciona porque temos o pod anterior a mostrar-nos todas as consequências futuras completamente distópicas e brutais que justificam as motivações e decisões destas personagens. E também só funciona porque o pod anterior nos explicou as regras fundamentais das viagens no tempo nesta narrativa.

Também é divertidíssima a decisão de porem a pistola no fim a disparar-se e a bala miraculosamente a passar entre o Fitz e a Jemma, como mais uma prova de que sim, eles são mesmo imortais neste momento. Paradoxalmente, essa confiança depende do facto de que o futuro é imutável, portanto ou há aqui uma contradição lógica, ou alguém está genuinamente enganado. É também por isso que eles continuam a pôr o Fitz a chamar atenção ao facto de que o tempo não pode ser mudado! Isto são escritores espertalhões, MUITO confiantes que têm uma reviravolta completamente inesperada e muito muito espertalhona planeada, a aumentarem eles próprios o nível de dificuldade para se gabarem de como vão ganhar à mesma.

Veremos se entregam o que estão a prometer.

Achas que isto vai tudo fazer sentido no fim?