AGENTS OF S.H.I.E.L.D. | Discussão T05 E03

Agents of S.H.I.E.L.D. nunca esteve tão bom!

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Por Gui Santos escritor/a em SOMOSGEEKS.PT
Sou um cinéfilo viciado em narrativa, dado a devaneios pretensiosos, e a ficar constrangedoramente entusiasmado com tudo.

“A Life Spent”

Este episódio foi TÃÃÃÃÃOOOOOO BOOOOOM! Começa logo com um zoom in extremamente impressionante vindo de imensamente longe para quase  um close up da estação espacial Lighthouse, onde sobrevive o que resta da humanidade sob o jugo dos Kree. A exposição destes primeiros momentos está extremamente bem escrita, com a maioria dos pormenores a serem depreendidos das cortesias falsas entre o Kasius e o enviado da Lady Basha, numa troca de insultos velados, mas o verdadeiro génio começa quando passamos para a perspectiva da Jemma. Ela continua sem conseguir ouvir o que se está a passar à volta dela, e vemos apenas as reacções e maneirismos do Kasius e da Sinnara a conspirarem e depois muito ameaçadoramente a olharem na direcção da Jemma; esta interacção diz imenso sem dizer nada, e cria um ambiente de ameaça e perigo fantástico.

E tenho a dizer que adoro este novo ambiente absolutamente cyberpunk em que a equipa se encontra. Eles a serem abusados pelo Grill, interpretado pelo excelente Pruitt Taylor Vince, ele a dizer à Yo-Yo para ser mais rápida, tudo cria um ambiente muito evocativo, e estabelece realmente quão difícil vai ser eles desenvencilharem-se disto (acho que o primeiro passo vai ser derrubarem o Grill e tomarem conta da operação dele, mas lá chegaremos). A interacção entre a Daisy e o Deke também é interessante, porque pelo meio do aparente flirt que está a haver e as acusações de a Daisy ter causado o Apocalipse, ele menciona a teoria dos Multiversos pela primeira vez. Isto é extremamente interessante porque sugere que eles vão começar a explorar isso, e se for esse o caso então as coisas têm o potencial para ficar mesmo, mesmo muito confusas e malucas, e eu gosto disso.

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A Daisy consegue encontrar o resto da equipa na fábrica do Grill, e faz contacto com a Yo-Yo, e gosto imenso que em vez de ela entrar por lá à bruta para salvar toda a gente, a Yo-Yo já tenha um plano em mente e lhe diga que ela pode ajudar melhor mantendo-se à distância; toda a gente está a tomar decisões extremamente racionais que apesar disso fazem sentido dentro do enredo (acredita em mim, isso é mais raro do que se poderia pensar). O Coulson, que entretanto já se meteu no arrastão espacial à custa das capacidades impressionantes de persuasão da Tess, suspeita que o Virgil estaria à procura de um calhau específico no espaço, cujo código é 616. O plano do Coulson é ir no arrastão à procura desse calhau, mas o Grill manda o seu saco de músculos com eles para os espiar.

Vale a pena neste momento fazer um parêntesis e explicar porque é que isto é relevante. Lembras-te como há pouco o Deke estava a falar de Multiversos? Pois bem, as bandas desenhadas da Marvel já usam esse conceito há anos para justificar milhentos reboots e universos paralelos e uma data de outras coisas mais ou menos estapafúrdias. Nas bandas-desenhadas a principal continuidade onde aconteceram a maior parte das principais aventuras chama-se Earth-616. Por comparação, a continuidade onde acontece o MCU é a Earth-199999. Eu quero acreditar que esta referência a um calhau no espaço com o número 616, quase imediatamente depois de o Deke ter mencionando Multiversos, não é apenas um easter-egg ou uma referência obscura, que vai ser mais do que isso e vamos ter uma exploração concreta e detalhada dos vários universos Marvel, e quem sabe até viagens interdimensionais! Woohooo!!

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Entretanto a Jemma descobre que a sua missão é ajudar uma rapariga Inumana a controlar os seus poderes. Todas as interacções entre a Jemma e a Abby (a rapariga inumana) são de uma ternura e afecto de derreter o coração; acho que nunca gostei tanto da Jemma como gosto agora, e pelo meio temos alguma exposição muito bem introduzida e importante. A Abby explica que foi removida da sua família, foi obrigada a treinar os seus poderes, e agora tem de passar por uma cerimónia, e se falhar nisso a sua família vai sofrer, e acredita que tudo isto são os Kree a ajudarem-na.

A sequência em que a Jemma ajuda a Abby a controlar os seus poderes também é lindíssima. O seu discurso em que ela faz uma analogia entre o espaço entre átomos e o espaço entre estrelas é simplesmente poético, e a composição da Abby a passar a mão através do jarro de vidro é igualmente visualmente linda. Claro que depois chega o Kasius e estraga tudo com a sua frieza ameaçadora, inclusivamente sugerindo que a Sinnara teria posto a Jemma naquela situação propositadamente para ela falhar. É arrepiante o desdém com que a Sinnara diz “compaixão” para descrever a Jemma, e isso diz-nos tanto dos Kree.

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O Coulson, a May, o Mack, a Tess, e o saco de músculos estão no arrastão espacial, e o Coulson e a May têm um momento muito bonito também, em que ela revela imensa vulnerabilidade quando ele lhe pergunta acerca da perna, dizendo apenas “I’m not going to lie” e deixando tudo o implícito. O próprio Coulson mostra um momento de dúvida, revelando que assume a possibilidade de eles nunca mais regressarem a casa. Quando a Tess chega com o globozinho azul do Virgil o Coulson mostra a sua esperteza encontrando dentro do globo uma chave, que lhes abre a porta para um rádio que o Virgil estaria a usar para comunicar com alguém. Nesse preciso momento, no entanto, chega o saco de músculos que os vê, e eles vêem-se obrigados a darem-lhe uma tareia (o Mack dá-lhe uma tareia, e raios se não foi satisfatório de ver), mas o que é realmente impressionante é o pânico da Tess, que compreende o mundo deles e que diz que ter feito isso é basicamente uma sentença de morte. A Tess propõe simplesmente atirarem-no para o espaço para se protegerem, mas o código moral dos outros impede-a. Nesse momento o Coulson descobre que há de facto uma transmissão a ser enviada do calhau flutuante, mas que essa transmissão está a ser enviada da superfície da Terra! Será o Fitz???

Entretanto na fábrica do Grill temos uma das cenas mais giras até agora, com a Yo-Yo a enganar o Grill de uma maneira espertíssima. Adoro como ela ao início finge que o seu Metric está a falhar correndo de maneira a confundir os sensores. Quando ele lhe remove o Metric e ela pode usar os seus poderes para ir buscar o pergaminho para dar à Daisy, a sequência e a representação visual dos poderes de velocidade dela está excelente, ao som de uma música etérea; é uma cena muito bem pensada e que funciona extremamente bem. A Daisy, depois de ter o pergaminho e pôr-se a caminho de ir encontrar a Jemma, é confrontada pelo Deke que a quer impedir por medo que os Kree façam represálias ao resto da população humana, chegando ao ponto de acusar a Daisy de ser a Quake, a destruidora de mundos, algo de que ela não gosta nada, mas que é difícil de censurar o Deke por sentir.

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Finalmente chegamos à Cerimónia, e os diálogos entre a Lady Basha e o Kasius são divertidíssimos de ver, com os dois a atacarem-se e a insultarem-se muito diplomaticamente. O que se segue é tudo menos diplomático, ao vermos a Abby, que parece ter pouco mais de 12 anos e ainda mais frágil do que antes numa espécie de arena, frente a um homem que mais parece uma montanha. O que se segue é duro de ver, porque não é propriamente uma luta, mas um espancamento brutal que o homem dá à Abby, que está numa desvantagem tremenda em todos os aspectos. Nem é a brutalidade da violência, ou sequer a unilateralidade da violência que aqui impressiona, mas sim o pânico e o medo da Abby. A brutalidade desta cena inicial escala ainda mais quando a Abby consegue cruzar um olhar com a Jemma e lembrar-se do que ela lhe tinha ensinado, e começa a modificar a sua densidade.

O plano em câmara lenta do homem gigante a partir todos os ossos no seu braço quando lhe dá um murro, e depois ela muito lentamente a enfiar o braço dentro do peito dele e a rematerializar-se destruindo-lhe o coração como se nada fosse é absolutamente brutal. No fim toda a gente fica contente, a Abby fica feliz por ter passado a sua “cerimónia” que agora percebemos que não foi mais do que uma luta gladiatorial para que a Lady Basha pudesse comprar mais uma escrava, e que a Jemma inadvertidamente contribuiu para isso. Toda esta sequência ilustra de maneira perfeita o mundo brutal em que os humanos e inumanos estão agora forçados a viver, e estabelece os Kree como vilões fantasticamente imponentes.

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Entretanto, o Coulson, a May, o Mack, a Tess, e o saco de músculos vêem-se obrigados a regressar ao Lighthouse, e mais uma vez o Mack reafirma o código de valores da S.H.I.E.L.D., de acordo com o qual eles não matam pessoas. Regressando ao Lighthouse, o Grill começa a ameaçar matá-los a todos por se terem amotinado e atacado o saco de músculos, e no último momento, quando a Tess parece estar a sacrificar-se por eles, a Yo-Yo planta uma arma no casaco do saco de músculos incriminando-o, ao que o Mack lhe dá um olhar reprovador. Isto vai ter consequências, de certeza, sobretudo para o saco de músculos. Entretanto a Daisy conseguiu infiltrar-se na base dos Kree, apenas para cair numa armadilha, sendo capturada pelo Kasius, que agora já sabemos que está à procura de Inumanos poderosos. Pior do que isso, percebemos que foi o Deke que a traiu. Wooooo, as coisas estão a tornar-se interessantes.

No fim, o Coulson consegue descodificar a mensagem que gravaram no Calhau 616, e descobre que de facto há alguém na superfície da Terra que estava a tentar comunicar com o Virgil, e que sabe que os Agentes da S.H.I.E.L.D. lá estão, tornando-se imperativo voltar a entrar em contacto com eles. Isso provavelmente vai ser difícil, porque na última cena do episódio vemos o saco de músculos na superfície da Terra a ser atacado pelas baratas espaciais que tínhamos visto inicialmente, numa cena muito reminiscente do Eclipse Mortal (2000).

Que episódio tão, mas tão bom! Tivemos imenso desenvolvimento de enredo, imensas cenas e sequências espectacularmente brutais e bonitas, imenso desenvolvimento de personagens, world-building! Agents of S.H.I.E.L.D. nunca esteve tão bom! Acho que esta é a série pela qual estou mais entusiasmado (mas não deixes de ver The Runaways, essa é a melhor série da Marvel actualmente).

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