Reign foi desde o início uma série ousada. A primeira temporada, com estreia em Outubro de 2013, deixou desde logo claro que este não era simplesmente um drama histórico. Era uma série dramática, baseada em personagens e cenários reais, mas com muito mais à mistura – romances e amizades e traições inventados, para além do óbvio componente de magia e fantasia que era tão forte nessa primeira instância.

Digo e sempre disse que esta é uma série juvenil, e era-o principalmente no início. Esta última temporada, a única da qual é suposto estar a falar neste momento, mudou um pouco as coisas, afastou-se da leveza dos seus princípios e tornou-se não só mais obscura e menos focada na magia, mas também mais fiel aos factos.

Esta série é uma miríade de cortes sumptuosas, paisagens majestosas, personagens altivas e cenas de uma beleza arrebatadora. Para mim, claro, como tenho sempre dito, as roupas reais foram um dos elementos mais importantes e que mais engrandeceram a série. Este guarda-roupa é da autoria de Meredith Markworth-Pollack, costume designer também conhecida pelo seu trabalho em Gossip Girl. De facto, uma das melhores descrições que tenho lido desta série é: Reign é como uma junção de A Guerra dos Tronos com Gossip Girl. É uma história acima de tudo entretida e mexida, que nunca estagna.

Em termos da qualidade dos actores, penso que estiveram todos dentro do nível necessário para interpretar personagens jovens num drama pensado para jovens. É raro vermos um actor com qualidades mesmo excepcionais durante as primeiras três temporadas, mas Adelaide Kane ultrapassou-se a si mesma nesta última temporada, desempenhando os momentos críticos da vida de Mary Stuart impecavelmente.

Quanto às outras duas Rainhas desta temporada, que podemos considerar como as protagonistas imediatamente secundárias a Mary, Megan Follows foi em todos os momentos brilhante como Catherine de Medici, apesar de este ter sempre sido um papel que não lhe deixou muito espaço para além do delimitado pela astúcia, cobiça e temeridade da personagem. Catherine nunca foi das mulheres mais emotivas de Reign.

Quanto a Rachel Skarsten no papel de Elizabeth… Simplesmente detestei-a, mas não sei se isso se deve à actriz ou à personagem. Digamos o seguinte: Skarsten tem enorme sucesso em interpretar uma personagem completamente odiosa, uma personagem que é a epítome da menina mimada, cruel, superficial e hipócrita. Até que ponto isso é um sucesso ou uma derrota, não sei dizer. Noventa por cento do que sai da boca de Skarsten parece falso e altamente ensaiado. Podemos ver através das acções desta Rainha Elizabeth no final, especialmente no último episódio, que não é suposto odiarmo-la completamente, que é suposto compreendermos as suas acções. Pois eu não compreendo, e acho-a detestável.

Outra personagem detestável, mas desta vez definitivamente não por culpa do actor Ben Geurens, foi a de Gideon Blackburn – como muitas vezes disse, consegue ser o homem mais detestável de três reinos, um dos quais inclui o Darnley. Houve outros actores que foram sempre lamentavelmente inferiores, e que cimentaram a reputação de Reign como uma série que não se poderia levar muito a sério: a Celina Sinden como Lady Greer (apesar de as suas falas terem sido afortunadamente reduzidas nesta temporada), o Spencer Macpherson como Charles (um Rei aparentemente tirado de Crepúsculo), Ann Pirvu como Nicole, e, claro, Rose Williams como Claude, uma personagem que é suposto começar como uma princesinha mimada e ter uma evolução pessoal que acaba por nunca se comunicar através da interpretação de Williams.

E esse é um dos problemas de Reign – as personagens não evoluem, mantêm-se estagnadas ao longo de toda a trama. As personagens principais podem ser uma pequena excepção a esta regra, mas mesmo assim não vejo grandes diferenças entre a Mary da primeira temporada e a Mary do último episódio. O código moral é sempre o mesmo, e o drama central é sempre o mesmo também. As personagens periféricas, então, mantêm-se inalteradas, passeiam-se através de cada nova história como se passearam pela história anterior.

Um dos problemas desta temporada foi a falta de tempo. Enquanto que as primeiras duas temporadas tiveram 22 episódios, e a terceira 18, a quarta teve apenas 16, e teve que condensar tudo aquilo que queria transmitir por a série ter sido cancelada. Continuo a ser da opinião de que a série teria beneficiado de mais uma ou duas temporadas, e que poderia continuar a ter material para muitas mais. Mesmo assim, os criadores da série já declararam que o final iria ser o mesmo de uma maneira ou de outra.

Há certos temas centrais que parecem permear todas as séries dos nossos tempos: feminismo, diferenças religiosas, racismo, classicismo. Reign é muito forte nos dois primeiros e raramente menciona os dois segundos. O feminismo, diria eu, é o problema principal da série, passada num século XVI no qual o mundo não estava preparado para ter simultaneamente duas Rainhas regentes e solteiras. Na realidade, aquilo que vemos ao longo de toda esta série é a maneira como os homens à volta de Mary e Elizabeth as usaram como peões, jogando uma contra a outra interminavelmente, e as fúteis tentativas de resistência por parte delas. No final, compreendemos que todos os Reis e Rainhas nesta série têm pouquíssimas escolhas. A questão dos protestantes contra os católicos (e numa fase muito mais inicial, dos cristãos contra os pagãos) também se manifesta sempre, salientando a natureza aleatória destas distinções.

E porque uma crítica é supostamente um artigo no qual te digo se recomendo que vejas esta temporada ou não: vê-a, mas apenas se já tiveres visto as anteriores. Se não, e se as descrições da série que tenho feito até agora te agradam, recomendo mesmo que vejas todos os 78 episódios desta série do início ao fim (ao contrário de muitas séries que me têm calhado na lotaria, esta é agradável de se ver quer estejas a comer, a arrumar a casa ou apenas a descansar).

No final de tudo, Reign é uma série simples: os bons são muito bons, os maus são muito maus, a intriga política é facilitista e os dramas interpessoais são algo infantis. Mas é uma série visualmente impactante, linda, que tem o condão de nos agarrar e prender, e que nos leva a sítios novos e maravilhosos. Sei que vou ter imensas saudades de Reign!

O que achaste da resolução final desta série?