Psst… Só aqui entre nós, eu vou te contar um segredo bem guardado… A minha consola favorita é a Mega Drive! Eu sei, não dá para imaginar, é normal estares surpreendido. Há uns anos atrás, decidi arranjar em segunda mão os dois addons para expandir as capacidades da consola, a Mega CD e a Mega 32x. Estas duas peças de hardware foram um fracasso comercial total com bibliotecas na sua generalidade muitas fracas. Mas isso não implica que não existissem algumas jóias raras para estas máquinas. Na Mega CD em particular quis arranjar o equipamento para o Sonic CD e o Final Fight CD, por exemplo.

Mas havia outro jogo clássico de culto nesta plataforma que me tinha chamado a atenção, uma aventura gráfica de ficção cientifica que mistura elementos de cyberpunk com film noir, Snatcher! É uma versão inglesa (a única, na verdade) de um antigo videojogo de computador japonês criado em 1987. Mas se é para estarmos a falar num contexto mais moderno de Snatcher, o detalhe que chama mais a atenção aqui é o seu director e escritor do cenário deste videojogo, Hideo Kojima.

Se por alguma razão abriste este artigo sem saber quem é este senhor, eu passo a explicar. Kojima é conhecido principalmente por ser o criador da série de videojogos de infiltração (ou “acção táctica furtiva”, ou lá o que as equipas de marketing gostam de chamar a isto), Metal Gear. Um facto que nem lhe sempre agradou porque dá a ideia que foi a única coisa que alguma vez ele fez. Não foi, mas este é o facto que lhe permitiu sobressair mais na indústria.

Felizmente hoje vamos corrigir esse problema nem que seja um bocadinho, pois o nosso foco principal aqui não é nas sagas de Solid Snake e do Big Boss. Para perceber Snatcher temos de mencionar outra conhecida característica importante deste senhor: a sua paixão quase fanática por Hollywood e o mundo do cinema! Apesar de ter seguido a sua carreira na industria nos videojogos, o que ele queria mesmo ser era realizador de cinema. Esse desejo é bem visível nos seus trabalhos, mas ele consegue combinar bem com os elementos interactivos deste meio, criando até por vezes experiências únicas pensadas fora da caixa. Tanto que Snatcher pode ser descrito de forma extremamente reduzida, como basicamente um filme realizado por Kojima e ao mesmo tempo, um dos melhores videojogos que alguma vez foi produzido!

A história passa-se em 2047, numa cidade multi-cultural no Japão chamada Neo-Kobe, num mundo onde o incidente de Outer Heaven do primeiro Metal Gear foi um acontecimento real e em 1996 metade da população mundial morreu num ataque biológico. Os protagonistas são Gillian Seed, um homem amnésico com treino militar e o seu pequeno assistente robótico, Metal Gear Mk. II, que trata de todas as necessidades logísticas, burocráticas e tecnológicas do seu parceiro. Gillian e a sua esposa perderam as suas memorias e a única coisa que o homem tem na cabeça são referencias sem nexo a algo chamado “Snatcher”.

Logo no inicio da história é explicado quem são os Snatcher. Um grupo de andróides que eliminam e roubam a identidade das suas vitimas para um propósito desconhecido, aproveitando também as tensões raciais que existem nesta sociedade urbana para cumprir a sua missão. O protagonista então junta-se a uma pequena organização de investigadores chamada “Junker” para investigar esta ameaça e tentar ao mesmo tempo revelar alguma informação sobre o seu passado.

Tal como qualquer tipo de videojogo deste género, o ambiente de jogo é extremamente visual e a interface consiste numa lista de comandos com as acções possíveis a tomar no local onde as personagens se encontram. Desta forma tentamos encontrar quem foi substituído, descobrir o paradeiro destas maquinas, arranjar maneiras de as conseguirmos distinguir de um humano verdadeiro e desmantelar toda esta operação.

Mas não é só texto que temos aqui, existem também segmentos de tiro onde temos de eliminar os vários alvos que estão no ecrã apontando com um cursor controlado pelo o comando ou com uma pistola de luz compatível com o videojogo. Estes momentos por vezes aparecem de surpresa, portanto está sempre preparado quando achares que o perigo está a espreitar.

Quem jogou outros trabalhos deste senhor já tem uma boa ideia do que sai daqui: algumas cutsceens longas (o final dura 20 minutos!), intriga conspiracional, muita decepção, cabeças a rolar, um rival badass e umas quantas bond girls para namoriscar. Mas podes esquecer a nanorrobótica e a genética-à-Lego para o teu alivio (ou desapontamento, há malucos para tudo…). E claro não podemos esquecer aquelas partidas que ele costuma fazer. Já no 1º Metal Gear ele pedia para desligar a consola e no Metal Gear Solid o comando era movimentado com “poderes psíquicos”, aqui temos uma pequena brincadeira com o volume da televisão.

Como era de esperar esta aventura está recheada de referencias cinematográficas e com muitos dos seus clichés típicos. Mas a maior influência, como já deves ter reparado pelas sua descrição, foi o filme Blade Runner. A atmosfera asiática decadente que se encontra nas inúmeras localizações do jogo é praticamente a mesma que a do filme, os Snacther são uma fusão dos Replicantes com os Exterminadores Implacáveis e a missão de ambos os protagonistas é praticamente a mesma. Mas claro que a história em si é completamente diferente…

Existe outras referencias, por exemplo, a videojogos da Konami, e estas são usadas de forma inteligente sem parecerem que foram introduzidas a murro. Por exemplo, num dos momentos do jogo Gillian reconhece um cosplay de Belmont como sendo uma personagem de Castlevania, o facto de um homem deste tipo saber este pequeno conhecimento de trivia em 2047 é uma pequena pista sobre o seu mistério pessoal.

A versão de Mega CD tinha outras características únicas revolucionárias muito raras na altura, como áudio de alta qualidade e um grande número de sequências com voz que ajudam na imersão e têm um impacto enorme em toda esta experiência estilo filme.

 

Eu já tinha jogado antes disto inúmeros point-and-clicks antes de ter pegado no Snatcher, mas visual novels japonesas era um mistério para mim na altura. Talvez tenha evitado pelo estigma do conteúdo pornográfico que o género costuma ter (Snatcher não pertence a este tipo de família, já agora). Mas Snatcher é uma experiência incrível que me abriu os olhos que isto aqui não é só para simuladores de encontros e para policiais que envolvem advogados.

Pode ser um videojogo extremamente difícil de arranjar visto ter vendido pouco na altura e nunca teve outros relançamentos em inglês. Mas é algo que um fã de Kojima deve tentar jogar de alguma forma uma vez na vida e ter uma ideia de como seria um filme deste senhor nalgum universo alternativo qualquer. Também é um óptimo ponto de entrada se quiseres explorar géneros mais obscuros… Ou simplesmente se gostas de cyberpunk e de Blade Runner.

E deixo a promessa que para o próximo mês não vamos ter OUTRO jogo da Konami… Bem, talvez… Logo se vê!

Sabes quais são os outros videojogos em que o Metal Gear Mk. II aparece?

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