O título é forte mas é verdade. Esta foi a pior edição da Comic Con Portugal, no entanto tivemos direito ao melhor grupo de convidados até hoje. Esta dicotomia não deveria existir e por isso merece que faça uma análise ao que correu mal este ano. Considero que esta foi a pior edição porque senti que houve melhorias mas que elas não foram suficientes para cumprir com as expectativas dos anos anteriores.

Mas vamos já deixar uma coisa bem clara. A organização deste evento só pode estar de parabéns. Fazer uma Comic Con que atinja as expectativas de todos não é fácil e este ano tivemos uma excelente selecção de convidados. Foram muitos e muito bons. Todas as áreas estiveram bem representadas e até tivemos um painel sobre um videojogo. Isso é bom. Ter variedade é bom. Os stands das entidades na área de Cinema & TV foram bons este ano, como já nos habituaram. O Artist Alley esteve num sitio mais digno e a zona de alimentação teve variedade para todos os gostos.

Posso criticar a não presença de certas entidades, tais como a Netflix, a Marvel, outras distribuidoras de filmes, etc, mas é errado fazê-lo pois não sabemos se foram abordadas pela organização ou se recusaram estar presentes. Infelizmente a presença de entidades foge ao controlo da organização. O que espero para o futuro é que façam todos os possíveis para terem mais empresas representadas na Comic Con Portugal. E espero também que esse esforço se converta em painéis com exclusivos. Sei que Portugal é pequeno e a comparação inevitável com o Brasil é completamente errada. Mas nada impede que seja mostrado cá, o que foi mostrado em outras Comic Con do resto do Mundo. Não precisamos de ter exclusivos mundiais, mas gostava de ver algo que só o público de uma Comic Con consegue ver.

Este ano tivemos dois exclusivos. Foi exibido o primeiro episódio de Midnight, Texas, série da NBC trazida para Portugal pelo Syfy, que ainda não estreou em nenhum país. E tivemos imagens exclusivas mundialmente de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas. No mesmo patamar que a BD, uma Comic Con vive de exclusivos. É para isso que uma pessoa vai a um evento destes. Conviver com artistas de BD, daí o nome “Comic” do evento, e ver exclusivos. Normalmente esses exclusivos são acompanhados de convidados e daí nascem os painéis. Aplaudo o esforço da organização para ter exclusivos no evento.

Os convidados foram outro triunfo do evento este ano. Foi sem sombra de dúvida o melhor grupo de convidados em qualquer edição da Comic Con Portugal. Os painéis foram muito bons, com os convidados bastante entusiasmados por estarem cá e com o público a abraça-los como nunca. De salientar, também, a melhor gestão do público nesta edição. As filas de entrada no evento e para os painéis foram muito melhor organizadas e os TPAs na zona comercial não deram problemas este ano, evitando a fila interminável no único multibanco dentro da Exponor.

Mas então, o que falhou? Muita coisa. A começar pela decisão errada de expandir o evento para quatro dias. Foi triste ver a Exponor praticamente vazia na quinta-feira e na sexta-feira. Mais triste ainda, foi ver os painéis sem público. Nesses dois dias só a zona VIP enchia e era porque a organização permitia que o restante público fosse para essa área. Aos olhos de um convidado, ver uma sala vazia é uma facada no coração. E para nós fãs é uma vergonha apresentar um público destes aos convidados. No Domingo esteve mais cheio mas não superou a enchente de Sábado. Se tivemos os melhores convidados até hoje porque é que tivemos os painéis vazios? Tudo se resume à divulgação da Comic Con Portugal. A divulgação é fraca. O maior evento de cultura POP de Portugal não pode ter publicidade na televisão apenas algumas semanas antes do evento. Falta saber criar entusiasmo no público e falta saber chegar ao público certo de uma Comic Con.

Repetir painéis também não é uma escolha acertada. Ao repetir um painel o mesmo deixa de ser exclusivo e isso faz com que um dos painéis esteja vazio. Foi isso que se verificou este ano. E tenho de falar dos moderadores dos painéis. Este ano houve dois bons moderadores: o Filipe Melo e o Joe Reitman. Os outros foram muito fracos, com destaque bastante negativo para a Andreia Novo. É de mencionar que nenhum moderador português falava bem inglês e acho que não é assim tão difícil arranjar quem seja fluente na língua inglesa. E é completamente impensável ter trailers a passar nos painéis de filmes que já estrearam. Infelizmente isso aconteceu constantemente. Foi também errado não divulgar e destacar os exclusivos do evento. Poucas pessoas sabiam dos exclusivos e isso fez com que os mesmos não tivessem o publico merecido.

O Artist Alley esteve bem posicionado este ano mas faltaram mais artistas… Sei, através das minhas fontes, que muitos artistas começaram a desconsiderar a Comic Con Portugal por causa da organização. Não se percebe que em três anos tal aconteça e é preciso trabalhar no sentido de inverter esta situação. E apesar da localização do Artist Alley ter melhorado… Intriga-me por que razão a Comic Con Portugal continua a não acertar totalmente com a organização deste espaço, pois não sendo tão central como alguns desejariam, seria de evitar elevar uma parede que deixa alguns artistas de costas para a maioria da acção do evento (várias foram as pessoas que me disseram que ainda não tinham descoberto o Artist Alley… Quando estavam lá ao lado). Havendo poucos é importante tratar bem deles.

A zona de alimentação carecia de mais mesas e as placas de direcção da zona de alimentação levavam o público para um beco sem saída. Não se percebe… Tal como não se percebe que haja informação somente em inglês. Isto já é algo recorrente dos anos anteriores. “Be Whatever You Want”, “Download Our App”, “Follow Us”, “Ask Here”, etc. Percebo a internacionalização do evento mas estamos em Portugal e gostava de ser abordado em português.

A aplicação da Comic Con Portugal foi fraca e isso é ser simpático. Muita coisa não apareceu, muita coisa apareceu em slots horários errados, etc. O programa em papel que foi distribuído no evento também falhou redondamente ao ser dividido por espaços e não por dias. Já para não falar do mapa do evento que foi impresso em cima do horário de várias actividades. Os voluntários não sabiam responder a nenhuma informação pedida. Várias vezes perguntei onde era determinado espaço, ou a que horas era o painel de um determinado convidado e, de todas as vezes, ninguém me soube responder. Um dos voluntários chegou ao cúmulo de não me saber responder onde eram as casas de banho. Entendo que são voluntários mas deveriam ter sido melhor preparados.

Sei que estou a ser bastante crítico, mas sei também que falo por muitas outras pessoas, quando digo que merecemos uma melhor Comic Con. Não quero que a nossa Comic Con seja a maior e melhor do Mundo, mas sei que é possível fazer melhor. Sei que é possível ter mais público, ter painéis esgotados, ter exclusivos, ter representação de mais entidades. Sei que é possível abordar de melhor forma o fã que faz da Comic Con aquilo que ela é. E, analisando as edições anteriores, a organização também sabe e procura lutar por mais e melhor. Talvez lhe falte pensar como um verdadeiro fã, falar como um fã e saber entusiasmar-se como um fã.

Só quando a Comic Con Portugal for feita de fãs para fãs é que será irrepreensível. Sei que a organização é capaz disso e espero que em 2017 eu engula tudo o que disse neste artigo porque se há algo que nos une é a vontade de fazer deste evento algo pelo qual todos os anos esperamos visitar com o maior dos entusiasmos.

O que achaste desta edição da Comic Con Portugal?

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